quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

petit jean






















esta é a minha versão favorita. aqui, outras versões. em destaque: versão bíblica, versão robinson crusoe e versão "lion é selvagem".

a culpa é da menina halflife que no soft humanity, blogue altamente recomendado, nos apresenta «sexy dudes» (isto de «dudes» faz-me mesmo lembrar o big lebowski).

terça-feira, 10 de Novembro de 2009

(+) branca escrevia o desgosto nos cadernos de capa negra a4,

depois estendia-o, à espera que a neve o cobrisse, que a chuva o levasse até ao mar. o mar haveria de saber o que fazer dele, torná-lo um desgosto náufrago. por vezes escrevia-o e não aguentava o choro, molhava-o, e então estendia-o e esperava que o sol o secasse. para depois o escrever de novo e o queimar; escrevê-lo e engoli-lo; escrevê-lo e rasgá-lo; escrevê-lo e pisá-lo.

e +





















ester ficou velhinha a chorar de um amor que não lhe respondia aos sonhos.
todas as manhãs as deixava no marco de correio do palais royal, depois apanhava o metro para o marais, bafejava os vidros e escrevi-as. aprendeu a dizê-las em linguagem gestual, na linguagem dos leques e a escrevê-la nos bolos, escrevi-as nas saladas (e com grande perícia, pulverizava-as com ervas), aprendeu a escrevê-las em grego e em checo. todos os dias fazia um poema de palavras escassas e com alguns erros, daqueles com as iniciais, sempre as mesmas 5 letras.

amour,
mon petit coeur, ma mer, je m'
oubli de moi, je porte cette robe d'été,
unicolore et très froid. mon amour est vrai,
répondez-moi s'il vous plaît.

heitor tinha cara de cigarro, usava óculos de massa e vibrava com policiais. aprendeu a arte de ourives com o pai. escolheu londres por causa do tamisa, um motivo estúpido: tamisa rimava com marisa, o nome da rapariga estilo cabaret que lhe tirava o sono desde miúdo. tinha uma folga por mês, chato, mas ele não se importava. nesses dias atravessava o canal da mancha, ia ao encontro de ester, a irmã, levava-lhe chá e singles dos smiths.

+

mas ela não sabia e por isso todas as noites adormecia sozinha, rodeada de flores de veludo, de seda, de todas as cores. adormecia a ler gigantes, à luz da lanterna dos acampamentos e agarrada a um pequeno dicionário, azul, do planeta-agostini, só para o caso de se querer certificar das palavras.

sábado, 7 de Novembro de 2009

so, why are you on your own tonight?

tinha de ser um rapaz que oferecesse flores, que tivesse um ligeiro sotaque francês, que ouvisse smiths e que declamasse. vinham príncipes de todo lado, com ramos de flores sumptuosas. sim, ela gostava que lhe oferecessem flores, mas tinham de ser flores murchas. e isso, nem o príncipe mais prodigioso poderia adivinhar.
o manuel poeta tocava nas flores e elas murchavam. tinha sido assim fadado na maternidade, pela senhora da cama do lado. chamava-se branca e tinha perdido o filho por também ter sido fadada na maternidade, numa noite de neve, pela parteira que não suportava quem não chorasse pela mãe.
o manuel tinha sido abandonado, enrolado num xaile, com um livro de poemas nas mãos bem pequeninas, tão perfeitinhas. e acolhido por ester que tinha sido emigrante a vida toda em frança e que, enquanto preparava salada capresse com orégãos, o esquecia em cima da jukebox que tocava vezes e vezes sem conta a i know it's over.


sexta-feira, 6 de Novembro de 2009

o cipreste parece que está a rezar, aquele gesto das mãos, o gesto de rezar*

as pessoas saem-nos da vida mas o coração fica mais pesado. depois, de quando em quando, podemos vê-las. dão-nos a mão, dizem que já vai passar, pedem-nos doce de pêra e marmelada, pedem-nos frades porque já caíram as primeiras chuvas, pedem-nos canções de embalar, levam-nos a reinos de outono numa "catroel" (4l).
quando fiquei sem o meu avô dilacerava-me pensar que nunca mais o ia ver, nessa altura já tinha dúvidas quanto ao paraíso, podiam ter-me dito que ia poder vê-lo, nos sonhos.

escrito no after 8, no dia 1.

*tia ção

sábado, 31 de Outubro de 2009

words in the hips ii

quando não sei bem o que dizer, se digo, digo disparates. se fico calada, faço aquela cara, olho para o céu, ponho as mãos nos bolsos, ou não ponho, e aperto-as muito. se está frio, esfrego os braços. se está calor, sopro um bocadinho.
quando tenho coisas para dizer e não as digo, penso noutras, algumas vezes coisas sem pés nem cabeça: a lua quando chora, chora purpurinas; quando é lua nova, as estrelas fazem uma festa, por isso, ficam mais brilhantes; o vento é maroto, por isso, despenteia as pessoas e ri desgarrado; as vacas sortudas são as que comem trevos de 4 folhas. e por aí fora.
as bailarinas andam com as palavras no corpo. desenham-nas a cada gesto, a cada passo, têm linhas muito fininhas nas mãos e nos pés, só visíveis a um certo tipo de luz. dançam e livram-se das palavras.

sexta-feira, 30 de Outubro de 2009

words in the hips i

























dance dance dance, lykke li.

quinta-feira, 29 de Outubro de 2009

hoje eu e a mari fomos pela primeira vez apanhadas, ou deixadas apanhar, por um taxista. isto acontece desde que há corgobus (córgóbush) na cidade: nas paragens, a chegada do corgo é antecipada por um táxi. o motorista diz: «quer vir pelo mesmo preço?» juntam-se quatro pessoas desconhecidas e: «vamos lá, que deus esteja connosco!»
calhou-nos um casal antiguinho e 3 moscas. «a menina é magrinha, vai no meio». lá por ser magrinha não quer dizer que tenha de ser esmagada por um casal de obélixes! e depois esta conversa:
-no outro dia levei o senhor pinto...
-ah, o pinto é meu primo afastado. é aquele que anda com uma pilha no coração (risadas). e eu logo a pensar: «mas qual é a piada?!» senti-me um bocado ofendida, como sabem, no dia 25 comecei a usar pacemaker. e depois: «e que tem as pernas avariadas» (gargalhadas). fogo, mais vale ir de córgó!

recipe

video

(...) as you can see, a very delicate combination of complex ingredients is the key. first, we put in some random thoughts. and then, we add a little bit of reminiscences of the day mixed with some memories from the past. that's for two people: love, friendships, relationships and all those "ships", together with songs you heard during the day, things you saw (...)


"episode of télévision educative", la science des revês, um filme de michel gondry (2006).

quarta-feira, 28 de Outubro de 2009

florentino

















não li o amor nos tempos de cólera, vi o filme, faz uns meses. o meu querido bardem é o florentino ariza, o protagonista. a certa altura, o florentino decide vender cartas de amor na feira, gostei da ideia. a rose diz muitas vezes que simpatiza com o malato e que se imagina a ir à pesca com ele, talvez por ter visto o filme com ela e por termos falado à hora do jogo duplo, por ter explicado à abi que não, as igrejas não são todas feitas de ouro e de lhe ter falado das talhas douradas... sonhei que o bardem era o meu companheiro de pesca, que vendíamos cartas de encantar e desencantar na feira, e que juntos pescávamos peixes dourados.

guido















o senhor de barbas, que nos deixava jogar futebol o ano inteiro e que cantava aquela música popularucha - "a mula da cooperativa". pronto, esse. faz aquilo das charadas, faz isso com o porteiro. ele chega e trocam essas coisas (mesmo como o guido e o médico chalado). no outro dia era assim: «qual a diferença entre um económico e um economista?» não apanhei a resposta, mas ultimamente tenho apanhado algumas: «uma valsa»; «castanha»; «emília». atenção que eu acho que é ele quem as inventa, entendo que inventa charadas até para a malta!

pequena adenda ao "je t'ame... moi non plus" 3 e 4

eu sei, as fotos estão muito abaixo do razoável. é obra minha e do zeca. fotos que a custo tirámos no acer - e.escola, que o sócrates enviou com muito carinho, um dia depois das legislativas e com quase 2 anos lectivos de atraso.

terça-feira, 27 de Outubro de 2009

e hoje... (rufar de tambores):

















sociologia entre 2 salas de música... no woman no cry, e, queda do império, mais conhecida como "perguntei ao vento".


imagem

segunda-feira, 26 de Outubro de 2009

quando se coça o nariz está um velho a apaixonar-se*

o sol bate deste lado, não se ouvem passos de pressa nas escadas. o sino toca de 15 em 15 minutos, ponho-me a contar (então, para dormir contam-se carneiros, para acordar contam-se badaladas, não vejo tontice nenhuma nisso!), faço contas até chegar às 83 que é a minha idade e depois farto-me. danço os olhos pelo quarto e desarrumo algumas memórias. cumprimento o robe do meu zé com um beijo, abro a janela para ver que tempo faz e decido se vou usar calças ou vestido, se vou usar botas ou as sapatilhas que a manuela me deu (as miúdas dizem que sou uma velhinha castiça, só por isso de andar de sapatilhas, eu acho que sou castiça porque ainda sei as coisas do mundo). depois vou aquecer café e ler um poema da bíblia. o carro só passa de hora a hora, apanho-o à mesma, o motorista lá desconta a viagem e sem saber leva-me pelo meu passeio de domingo, dou a volta à cidade e espanto-me por tudo e por nada.
a lua bate deste lado (tenho a sensação que a lua me persegue, às tantas foi por isso que a gracinha nasceu com aquela cabeça), arrumo as memórias, pisco os olhos e estalo os dedos para sonhar com algodoeiros.


*maria rosa