22.5.13

Outra história de cordel

Tinha a rua acabado de acordar e dois bombeiros discutiam muito arreliados, um assim: «Au revoir, ainda não desapareceste? Au revoir, ainda não desapareceste?» - gritou isto muitas vezes. Até que deixei de os ver, depois - de os ouvir. Desapareceram. Fui dar com eles mais tarde na caixa dos perdidos e achados, dormiam os dois bem abraçados.

20.5.13

Já ando há algum tempo para te apanhar,
mas a tua moradia é em folha de planície
de um canto ao outro pautada no som vasto da pradaria e
eu tenho o passo gasto,
só na turbulência me dou.

19.5.13

Nas palavras cruzadas #1

às vezes quando o mundo se fecha
parece um molusco bivalve.
quando o vires assim, espera.
aos poucos ele lá se abre e sacode a pérola.

18.4.13

Letter to Emily


Translated by Raymond Maxwell, «finer points» by Filomena.



"Dear Emily,
There are houses and there are words that 
I don't know well how to guide someone's entrance into into
So I hope we all relax
and ascend them by the windows."

17.4.13

Querida Emily,
há casas e há palavras que
eu não sei bem como faça para entrar nelas
então espero que toda a gente se deite
e subo-lhes pelas janelas.

15.4.13

O homem esfregou as mãos,
a mulher tinha preparado uma iguaria,
huumm, lampreia - uma espécie de enguia.
O homem comeu, sorriu e depois chupou os dedos.
Agora a mulher espreita pela toca do rato
e faz frifrifri - um riso maquiavélico que aprendeu na escola,
é que sem saber o homem tinha acabado de comer a cobra.

14.4.13

Uma história de cordel

Eram duas irmãs, uma tinha a mania estranha de coleccionar frascos de perfume vazios e a outra a de encostar-se nos cantos muito parada a comover-se por tudo e por nada. Apesar dessas manias eram muito engraçadas, por exemplo: repartiam as palavras - cada uma dizia a sua metade, roubavam as flores das campas dos outros e punham-nas na campa dos pais, comiam as hóstias ao padre, partiam-se a rir quando iam apanhar pinhas e não traziam pinhas nenhumas, e outras coisas que tais. Tantas vezes lhes chamaram encalhadas lá na aldeia que um dia a casa delas se transformou num navio e foi assim que foram num cruzeiro pelo ribeiro abaixo e nunca mais ninguém as viu.

13.4.13

Era uma vez uma mulher muito bonita mas muito despenteada,
então pegaram nela e guardaram-na no centro do quintal
onde jaz a espantar pássaros. Chamava-se Natasha.
quando páras o tempo não pára
mas podes sempre parar
pôr-te a escutar o ritmo da casa e o que dança
a minha faz assim:
luz,
quer dizer, isto depende
do dia da semana,
da casa estar ocupada ou desocupada
mas há sempre algo que a ocupa mesmo estando desocupada.
luz; pássaros,
a torneira, pratos e talheres - a minha mãe a lavar a louça-,
estalido do móvel,
ventoinha do computador, relógio; acção.

ontem fui ao relojoeiro, nunca tive o relógio tão certo!
noentanto, o que eu queria mesmo era
era ver o momento exacto do ponteiro das horas mover-se,
o momento exacto da flor a florir,
a primeira gota de chuva a cair na pessoa que passa lá em baixo,
sentir o movimento da terra e o calor do núcleo,
o momento exacto da estação virar,
esta é velha - o momento exacto do bater de asas
e outras coisas que agora me escapam.
os da national geographic conseguem fazer isso
mas têm de estar sempre lá,
quer dizer, nem sempre
mas pelo menos a  câmara tem de estar bem apontada.

antes dizia-se anteóntem
depois lá veio um entendido limar
«antes de ontem, diz-se antes de ontem»
anteóntem passei pela avenida
- a minha mãe a beber água,
bebe sempre três púcaros,
amanhã conto em quantas goladas -
e a avenida está cada dia mais triste
ainda estou para saber
em que lugar guardam as flores que eram da nossa cidade.

12.4.13

Tenho a certeza que em mímica um bom dia assim muito bem dado é como o dos pais da A.C., um gesto que vai da cabeça para o resto do corpo.

11.4.13

escrevi palavras tão frias
com o desejo ardente de que fossem um poema
depois tirei o anel de areia brilho de ametista
e guardei as mãos nos bolsos
os dedos explodiam-me de tantas frieiras
entretanto anoiteceu
agora talvez mais logo ou amanhã

6.4.13

Para a tristeza mais funda
não há antídoto
nem razão.

5.4.13

NaPoWriMo 2013

once there was a man which
grew in the top of a tree nest
everybody was wondering what he will do in life
with no surprise he took first the left and then the right
and became to be the greatest birdwatcher in all the city

he was doing it so so well until the day
the two birds starting to cry
one for more lightweight wings
for more strong roots the other

soon the poor lover birds man
went crazy and threw away all the cages he had on the balcony
where he used to rehearse all of his flights
but then others found it and took it to their homes
where they remain very silent and locked

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houve uma vez um homem que
cresceu num ninho no topo de uma árvore
todos se perguntavam o que ele faria na vida
sem surpresa ele tomou primeiro a esquerda e depois a direita
e tornou-se no maior observador de pássaros da cidade

fazia-o tão tão bem até ao dia
em que os dois pássaros começaram a chorar
um por asas mais leves
por raízes mais fortes o outro

rapidamente o pobre homem amante de pássaros
enlouqueceu e deitou fora as gaiolas que tinha na varanda
onde costumava ensaiar todos os seus voos
mas depois outros encontraram-nas e levaram-nas para as suas casas
onde permanecem muito silenciosos e trancados

1.1.13

Quando ando desalmada é a alma que não cabe.

31.12.12

(ou)vi um menino
encantar um cisne
com o som do seu violino